O Silêncio que Fala: 7 Princípios do Design Japonês e a Alma do Concreto
por Fabiane Penz
Por muito tempo, acreditei que uma casa bonita era suficiente. Que bastava acertar nas proporções, nos materiais, nas cores. Mas, com o tempo e a vivência, entendi que o “bonito”, sozinho, não sustenta.
Hoje, busco outra coisa. Busco alma.
Para mim, uma casa com alma não nasce pronta; ela começa na escolha da matéria. Quando criei a Penz, não queria apenas produzir revestimentos. Eu queria traduzir sensações em matéria. Transformar o cimento, visto como bruto e frio, em algo sensível, afetivo e humano.
Nessa busca pelo equilíbrio entre a precisão da indústria e a imperfeição do fazer manual, encontrei algumas respostas em filosofias ancestrais. Recentemente, revisitei os sete princípios da estética Zen japonesa. Eles explicam, com uma clareza impressionante, por que certos espaços nos acalmam e nos fazem sentir que “pertencemos”.
Aqui está como esse olhar milenar dialoga com a nossa materialidade contemporânea.
1. Kanso (簡素): A Simplicidade
O essencial, sem o desnecessário.
No design japonês, Kanso é a eliminação do ornamento fútil. É a clareza. Para a Penz, isso se traduz na honestidade do concreto. Sua beleza está na sua textura crua, na sua cor sóbria.
Um revestimento Kanso não grita; ele compõe.
“A elegância da subtração.”
2. Fukinsei (不均整): A Assimetria
A perfeição de ser imperfeito.
A indústria busca a repetição exata. A natureza busca o equilíbrio na assimetria. O Fukinsei nos lembra que o círculo desenhado à mão é mais belo que o feito por compasso, pois carrega a energia de quem o fez. Nossos produtos, embora modulados, carregam variações naturais de tom conforme a cura. Não é defeito; é a prova de que ali existe matéria natural. É a negação da “plastificação” da arquitetura.
3. Shibui (渋い): A Beleza Discreta
O que é belo sem precisar de esforço.
Shibui é o oposto do “cheguei”. É uma beleza que se revela aos poucos, a sofisticação do silêncio. Um ambiente Shibui permite que a pessoa seja a protagonista, não a decoração. Nossos tons — cinza, areia, grafite — são Shibui. Eles servem de palco para a vida acontecer. É o design que fala baixinho, mas diz muito.
Revestimento desenhado pela artista plástica Sachiko
4. Shizen (自然): Naturalidade
A ausência de pretensão.
Shizen é a arte de fazer algo parecer que sempre esteve ali. É a fusão entre a intenção humana e a fluidez da natureza. O concreto não deve lutar contra o verde; deve ser suporte para ele.
“O concreto envelhecendo dignamente junto com o jardim.”
5. Yūgen (幽玄): A Profundidade Sutil
A sugestão em vez da revelação total.
Yūgen é sobre o mistério. É olhar para o céu à noite e sentir a vastidão. Na arquitetura, é o jogo de luz e sombra. É aqui que o design de superfície da Penz brilha. Um exemplo é o revestimento desenhado pela designer de joias Lise Rolim, a peça chamada Folha, não é estática; ele muda conforme o sol caminha. O Yūgen está nessa dança que a peça faz com a luz.
Revestimento Folha
6. Datsuzoku (脱俗): Liberdade da Convenção
Significa transcender o convencional. O cimento era visto apenas como estrutura, algo bruto para ficar escondido. O Datsuzoku no nosso trabalho foi trazê-lo para o acabamento fino, para a sala de estar, para o teto. É olhar para um material comum e extrair dele o extraordinário.
Concreto ganha textura de bamboo, por Camila Oliveira
7. Seijaku (静寂): Tranquilidade
A calma em meio ao caos.
É o estado de espírito que o design deve provocar. No mundo ruidoso de hoje, nossos lares precisam ser santuários de silêncio (visual e acústico). A solidez do concreto, sua massa térmica e sua estética calma contribuem para o Seijaku. É criar espaços onde a mente possa descansar.
Luz difusa, transmitindo paz absoluta.
O Artesanal na Era da Indústria
Estudar esses princípios reforça nossa convicção na Penz: a tecnologia é ferramenta, mas a sensibilidade é humana.
Casa com alma não é tendência. É necessidade. É uma resposta ao excesso e à pressa. Eu acredito em casas que acolhem mais do que exibem. Em espaços que comunicam sem precisar explicar.
A Penz nasce desse lugar. Do desejo de criar materiais que façam sentido, que tragam pertencimento. Porque, no fim, uma casa com alma não é aquela que todos admiram. É aquela que, quando a porta se fecha, te faz sentir: “aqui eu pertenço.”