
Ler Nação Dopamina, da psiquiatra Anna Lembke, foi como olhar para o mundo, e para o design — com uma nova lente.
O livro fala sobre a busca incessante pelo prazer, e sobre como vivemos em uma sociedade que estimula o desejo o tempo todo.
Mas o que mais me tocou foi perceber o quanto essa lógica também atravessa o nosso trabalho criativo, o modo como produzimos, comunicamos e até sentimos.
Vivemos em uma cultura dopaminérgica, movida pelo “quero agora”, pelo impacto, pela novidade.
Mas o prazer imediato cobra um preço alto: ele nos afasta da profundidade, da presença e do sentido.
E talvez tenha sido exatamente por isso que a Penz nasceu: como uma tentativa de desacelerar o olhar e devolver ao tempo o seu valor dentro da beleza.
O equilíbrio entre prazer e dor — e a estética que respira

Lembke explica que prazer e dor são processados no mesmo sistema do cérebro.
Quando há excesso de prazer, o cérebro busca o equilíbrio, e se inclina para a dor, o cansaço, o vazio.
Isso me fez pensar sobre o excesso estético em que vivemos: tudo é lindo, tudo é intenso, tudo é “incrível”. Mas, na verdade, poucas coisas realmente ficam.
Quantas vezes criamos para agradar? Para “viralizar”?
E o quanto isso tem esgotado a essência do design?
Na Penz, aprendi com o cimento algo precioso: a beleza está na pausa.
O cimento não é imediato, ele cura devagar, amadurece com o tempo, reage à luz e à umidade.
Ele não entrega dopamina, entrega presença.
E talvez o equilíbrio entre prazer e dor que o livro fala seja exatamente isso: a capacidade de resistir ao impulso e apreciar o processo.
A “Nação Dopamina” e o vício pelo novo

Vivemos cercados por estímulos: redes sociais, eventos, lançamentos, texturas, sons, tudo nos empurra para o consumo de novidade.
Lembke fala que o excesso de dopamina nos faz desejar mais, mas aproveitar menos.
E eu vejo isso no design, no ritmo acelerado das tendências, na necessidade constante de “inovar” visualmente.
O problema é que o novo, sozinho, não basta.
Na Penz, eu não quero apenas lançar algo novo.
Quero lançar algo que permaneça.
Algo que resista à pressa, que amadureça, que conte uma história mesmo depois de muitos anos aplicados em uma parede.
Criar revestimentos cimentícios é quase um antídoto contra a dopamina: é um gesto de paciência.
Cada peça nasce de um processo manual, curada de foma natural, marcada pelo tempo e pela mão que a moldou.
E essa naturalidade é o que nos salva do vazio do “mais um produto bonito”.
O jejum de dopamina — e a escolha por criar com alma

O livro traz uma proposta incrível: o jejum de dopamina, um tempo sem estímulos, para que o cérebro recupere sensibilidade.
Ao ler isso, percebi o quanto nós também precisamos de jejum.
Precisamos de silêncio criativo, de pausa entre um projeto e outro, de espaço para o olhar se recompor.
A Penz nasceu de uma pausa.
De um tempo de observação, de redescoberta da matéria, de escuta ativa das necessidades estéticas e funcionais e principalmente das mãos que produzem.
Foi nesse intervalo entre o fazer e o sentir que encontrei o propósito da marca: criar peças com alma, que não nascem para competir, mas para conversar com o espaço e com o tempo.
A importância da dor — e a beleza da imperfeição

Lembke fala que precisamos abraçar o desconforto.
Que a dor e o esforço são partes essenciais para restabelecer o equilíbrio do prazer.
Essa ideia ressoou profundamente em mim, porque o trabalho com o cimento tem exatamente essa relação com o imperfeito, com o processo.
Nada no cimentício é controlado.
Há a variação de cor, texturas, tempo de cura, o traço e a instalação.
E é justamente isso que o torna vivo, como se cada peça respirasse sua própria história.
A dor, no design, talvez seja o esforço de resistir à perfeição.
De aceitar o tempo, o acaso, o que escapa do controle.
E é isso que eu quero continuar provocando com a Penz: um design que não se impõe, mas se revela.
Autocomprometimento — criar com propósito

Lembke propõe o que chama de autocomprometimento categórico — estabelecer limites firmes para manter o equilíbrio.
Na Penz, esse princípio virou filosofia.
Nos comprometemos a produzir com consciência: reaproveitando água, respeitando o tempo de cura, priorizando pigmentos naturais e reduzindo desperdícios.
Não é sobre ser “ecológico da moda”, mas sobre ser coerente com o que acreditamos.
Produzir cimento é também produzir responsabilidade.
É entender que cada escolha estética tem um impacto — ambiental, emocional e simbólico.
Minha ideia sobre a leitura — desacelerar o olhar

O que Nação Dopamina me ensinou é que o prazer está se tornando raso porque esquecemos de olhar devagar.
E é exatamente por isso que este blog existe:
para criar um espaço onde possamos refletir sobre o design de forma mais profunda, onde cada textura, cada sombra e cada silêncio visual tenha significado.
A Penz não quer ser uma paixão momentânea.
Quer ser lembrança, permanência, presença.
Quer ser o contrário do consumo rápido, quer ser o que fica depois que o impacto passa.
“Nem todo prazer precisa ser intenso.
Alguns precisam apenas ser verdadeiros.”


