
Por que “tendência” não basta?
A palavra “tendência” costuma carregar um sentido de moda rápida, efêmera, quase descartável. A jornalista Eleone Prestes já destacou diversas vezes o desconforto que sente com o termo: “tendência” sugere algo que dura pouco, enquanto a arquitetura precisa permanecer, ser prazerosa de habitar ao longo do tempo.
Na era em que tudo muda rapidamente, é um desafio fugir do fast fashion arquitetônico. Como, então, arquitetos e designers podem enxergar os sinais sutis das mudanças sem cair em armadilhas temporárias? Como trazer esse olhar para dentro dos projetos e dos materiais — como revestimentos, cores e texturas — de modo que façam sentido hoje e resistam amanhã?
1. Storytelling e Storyfeeling: duas camadas do projeto
- Storytelling é contar histórias por meio de formas, cores, texturas, volumes e luz.
- Storyfeeling é provocar emoções e sensações que vão além da narrativa: é o corpo sentindo o espaço, é a textura que desperta aconchego, a luz que gera bem-estar, a cor que remete a uma memória afetiva.
Um projeto que une storytelling e storyfeeling não apenas “fala” com quem o habita, mas também faz sentir — e esse é o verdadeiro teste de permanência.

2. Como “ver antes”
Arquitetos e designers que conseguem identificar transformações antes que se tornem consenso adotam uma postura próxima ao foresight design (design com olhar para futuros possíveis). Algumas ferramentas:
- Foresight & futurização: observar não o que está popular, mas o que começa a aparecer em nichos culturais, feiras experimentais, artes visuais, startups e pesquisas de materiais.
- Scouting & horizon scanning: vasculhar os “cantinhos do mundo” — uma feira local de artesanato inovador, um laboratório de biocimento, uma instalação artística efêmera.
- Inputs multidisciplinares: sociologia, antropologia, economia, clima, tecnologia.
- Cenários narrativos: criar pequenas histórias de futuros plausíveis e testar materiais, cores e texturas dentro desses cenários.
- Feedback contínuo: prototipar em pequena escala, observar como o material envelhece, como a sociedade o recebe.
Esse processo não é sobre seguir “o que está em alta”, mas sobre antecipar e traduzir sinais.
3. Inspirações atuais: onde o mundo olha
Hoje, os olhares globais estão se voltando para o Hemisfério Sul. Por quê?
Porque aqui há clima, luz e cultura distintos do Norte, capazes de inspirar novas respostas arquitetônicas.

Fontes principais de inspiração:
Principais Feiras de Arquitetura e Design
Europa
- Salone del Mobile (Milão, Itália) – maior feira de design de móveis e interiores do mundo. Acontece em abril e movimenta toda a cidade com o Fuorisalone.
- Cersaie (Bolonha, Itália) – referência global em revestimentos cerâmicos, cimentícios.
- Maison & Objet (Paris, França) – foco em design de interiores, decoração, lifestyle.
- London Design Festival / 100% Design (Inglaterra) – evento espalhado pela cidade, combinando exposições, talks e inovação em design.
- Bienal de Arquitetura de Veneza (Itália) – principal encontro conceitual e artístico de arquitetura, com curadorias internacionais.
- Dutch Design Week (Eindhoven, Holanda) – voltada à inovação, materiais e experimentação.
Américas
- NeoCon (Chicago, EUA) – maior feira de design corporativo e de interiores para ambientes de trabalho.
- ICFF – International Contemporary Furniture Fair (Nova York, EUA) – referência em design contemporâneo e mobiliário.
- Design Miami (EUA e Basileia, Suíça) – feira boutique de design colecionável, ligada à Art Basel.
- Expo Revestir (São Paulo, Brasil) – considerada a “Fashion Week da Arquitetura e Construção”, principal feira da América Latina para revestimentos e acabamentos.
- Casacor (Brasil, em várias cidades) – mostra de arquitetura, interiores e paisagismo com forte apelo conceitual.

Ásia e Oriente Médio
- Design Shanghai (China) – a maior feira de design da Ásia, com foco em inovação e luxo.
- Tokyo Design Week (Japão) – mistura arte, arquitetura, design gráfico e produto.
- Dubai Design Week (Emirados Árabes Unidos) – consolidada como ponto de encontro para designers e arquitetos do Oriente Médio.
Mais inspirações

- Institutos de trend forecasting (WGSN, Trend Atelier, Trend Almanac): indicam comportamentos estéticos globais.
- Arte contemporânea (instalações imersivas, arte têxtil, land art): fontes de novas linguagens visuais.
- Sustentabilidade e materiais emergentes (biocimento, micélio, concreto de baixo carbono): combinam inovação e responsabilidade.
4. Critérios para separar modismo de permanência

- Durabilidade estética — não basta ser novo, tem que envelhecer bem.
- Contextualidade local — clima, luz e materiais da região precisam ser considerados.
- Viabilidade produtiva — soluções precisam ser possíveis em escala, não apenas conceituais.
- Compatibilidade sensorial — como a textura se comporta ao toque? Como a luz reage sobre ela?
- Potencial de resignificação — o material deve poder ser reinterpretado ao longo do tempo, sem perder relevância.
5. Revestimentos: tonalidade, textura e superfície

É aqui que a sutileza se traduz em projeto:
- Tonalidades emergentes: neutros quentes, verdes acinzentados, terrosos suaves, cinzas a caminho do bege.
- Texturas latentes: relevos sutis que aparecem com luz rasante, superfícies que “mudam” conforme a iluminação.
- Híbridos: peças que transitam entre liso e rugoso, entre opaco e brilhante, entre natural e industrial.
- Modularidade e recomposição: revestimentos que permitem substituição, reuso ou combinações diversas ao longo do tempo.
- Superfícies responsivas: materiais que refletem luz, geram sombra ou até mudam de percepção conforme a incidência solar.
6. Exemplos internacionais
- Tropical Modernism: integração entre modernismo e clima tropical, com foco em luz e ventilação.

- Parametricismo: uso de algoritmos para criar formas adaptativas.

- Arquitetura australiana emergente (2025): valorização de materiais ecofriendly, biophilia e madeira reciclada.

- Casas de vidro contemporâneas: exploram integração com a paisagem, apesar dos desafios térmicos.

Esses cases mostram que não se trata apenas de estética, mas de resposta cultural e climática.
7. Conclusão: o arquiteto como leitor de sinais
Mais do que seguir tendências, arquitetos e designers precisam se tornar leitores de sinais sutis da sociedade.
- Ler a arte, o comportamento, a cultura.
- Traduzir em materiais e texturas que duram.
- Criar espaços que não só contam histórias (storytelling), mas também fazem sentir (storyfeeling).
Assim, a arquitetura deixa de ser fast fashion e se torna aquilo que deve ser: um espaço para viver, por muito tempo, com beleza, memória e sentido.



