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Tendência ≠ Produto: por que precisamos olhar além do óbvio

por Fabiane Penz

É comum ouvir, após uma grande feira de design ou arquitetura, que “a tendência é o que vimos exposto nos estandes”. Mas essa leitura é um equívoco. O que se apresenta ali já não é tendência, mas produto: resultado de pesquisas anteriores, traduzido em materiais, cores e formas disponíveis ao mercado.

A tendência verdadeira é invisível no primeiro momento, um sopro de mudança que nasce na cultura, nos comportamentos sociais, nas tecnologias emergentes e nas transformações ambientais. Como afirma a analista de tendências Fah Maioli, “o que está nas vitrines já virou produto”. Tendência é o que ainda não se consolidou, mas que em breve moverá o consumo, a estética e o design.

O que é tendência e o que é produto

Tendência não é aquilo que vemos prontos nos showrooms. São sinais fracos, manifestações iniciais que surgem em nichos culturais, subculturas, movimentos sociais e pesquisas experimentais. Tendência está ligada ao Zeitgeist — o “espírito do tempo” — conceito filosófico que traduz o clima cultural de uma época. A trend forecaster Li Edelkoort afirma que “a tendência nasce de intuições coletivas que respondem a necessidades inconscientes de uma sociedade”.

Produto, por outro lado, é a concretização. Já foi estudado, desenhado, produzido e colocado no mercado. É a consequência da tendência, não sua essência. Para o consumidor, pode soar como novidade, mas para quem pesquisa é passado.

O ciclo de vida das tendências

O sociólogo Everett Rogers, em Difusão de Inovações, e outras consultorias como a Heuritech, descrevem o ciclo de uma tendência:

  1. Sinais emergentes → percebidos apenas por alguns poucos.
  2. Adoção inicial → criadores, designers e early adopters exploram.
  3. Ascensão → a mídia começa a dar visibilidade, aparecem em exposições.
  4. Pico → massificação, grandes marcas traduzem em produtos.
  5. Declínio → perde força, é substituída por algo novo.

Quando vemos algo em grandes feiras internacionais ou nas vitrines das lojas, estamos diante de produtos no pico do ciclo, não mais de uma tendência.

Onde nascem as tendências

Cultura e sociedade

Mudanças de valores sociais, como diversidade, feminismo ou sustentabilidade, moldam o design. O filósofo Theodor Adorno já dizia que a cultura influencia formas de consumo mesmo sem intenção comercial.

Artes e subculturas

Subculturas são incubadoras de tendências. O sociólogo Dick Hebdige, em Subcultura: o significado do estilo, mostrou como o punk, o hip hop e outros movimentos marginais se tornaram estéticas globais.

Tecnologia

Novos materiais, inteligência artificial, biodesign e inovações disruptivas são grandes motores. O futurista Ray Kurzweil reforça que a aceleração tecnológica impulsiona transformações culturais e de consumo.

O Sul como laboratório do futuro

Fah Maioli destaca a importância do Sul Global (América Latina, África, Oceania). Nessas regiões, os desafios ambientais e sociais diferentes geram soluções criativas e sustentáveis, que acabam ditando tendências para o Norte. O uso de materiais regenerativos, economia circular e estética híbrida do Brasil já vem atraindo atenção em eventos de Milão e Copenhague.

Pensadores e referências que ajudam a entender tendências

  • Li Edelkoort → pioneira do forecasting, defende que a tendência é uma intuição coletiva que antecipa necessidades.
  • Faith Popcorn → conhecida por mapear macrotendências de comportamento, como o “Cocooning”.
  • Fah Maioli → defende que olhar vitrines é olhar para o passado; tendência nasce do invisível, dos sinais emergentes.
  • Francesco Morace → sociólogo e futurista italiano, vê tendências como narrativas sociais em construção.
  • Martin Raymond (The Future Laboratory) → autor de The Trend Forecaster’s Handbook, descreve metodologias para identificar tendências.
  • Grant McCracken → antropólogo, interpreta o consumo como linguagem cultural; produtos traduzem símbolos sociais.

Por que não podemos confundir produto com tendência

  • Risco estratégico: quem copia produto está sempre atrasado.
  • Falsa inovação: empresas passam a repetir fórmulas já esgotadas.
  • Perda de relevância: o consumidor percebe quando falta frescor.
  • Dependência externa: olhar só para o que já foi apresentado limita nossa capacidade criativa.

Como captar tendências reais

  1. Observar sinais fracos em nichos e comportamentos emergentes.
  2. Mapear subculturas que experimentam antes da massa.
  3. Escutar a sociedade em seus movimentos sociais, políticos e ambientais.
  4. Experimentar materiais inovadores e regenerativos.
  5. Valorizar o Sul como fonte legítima de novas estéticas e soluções.

Conclusão

Se queremos inovar, precisamos aprender a diferenciar produto de tendência. O produto é fotografia do passado; a tendência é o filme do futuro.

Não basta olhar para feiras e vitrines — é preciso ouvir a sociedade, sentir as artes, observar a rua e perceber as mudanças sutis do comportamento humano.

Como dizia Edelkoort, “as tendências estão sempre acontecendo, basta aprender a vê-las”.

A provocação é clara: vamos deixar de correr atrás e começar a antecipar?


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